Adeus Lenin!

Direção Wolfgang Becker

A mentira através da manipulação das imagens é um dos temas do filme Adeus Lenin! E é o qual irei trabalhar. Os personagens do filme são falsários do bem, pois todas as mentiras do filme são para fazer o bem á outra pessoa. Exceto a comemoração dos 40 anos da República Democrática da Alemanha (RDA ou DDR, Deutsche Demokratische Republik ou DDR), que é uma verdade falsa e prejudica a população com as proibições e a falta de liberdade em vários sentidos.

Alex o personagem principal, manipula de uma forma excepcional as imagens de uma Alemanha Socialista falsa, que passa a fazer parte da realidade de sua família, afetando-os. Suas mentiras acabam fazendo parte de sua realidade, talvez por ser filho de “falsários”, sua mãe que mente para ele a vida toda sobre seu pai, muitas inverdades são contadas no filme fazendo uma metáfora com o próprio cinema, que é um criador de realidades, feito pelos maiores falsários, os cineastas, que sobrevivem contando mentiras, Orson Welles é uma prova disso.

O filme se passa no último suspiro da extinta Alemanha Oriental (socialista), entre o fim dos anos 80 e início dos anos 90, país dependente da extinta União Soviética. No filme, é mostrado através de cenas “reais” misturadas com cenas “fictícias”¹, a comemoração dos 40 anos da República Democrática da Alemanha (RDA ou DDR, Deutsche Demokratische Republik ou DDR). Nessas comemorações, são mostrados tanques, soldados, chefes de estado (Socialista), mostrando através das imagens um poder inexistente, de um país “forte”. A população como é mostrada no filme, não aguentam mais esse tipo de manipulação feita pelo governo, mostrando a satisfação e força que o país possuía, na verdade o país deixou de existir em apenas alguns meses após essas comemorações. Essas imagens que o mundo via dessa Alemanha era uma forma de poder, que com isso ficava difícil distinguir o real do falso, o povo “sabia” que aquilo era falso, mas não tinha como se manifestar contra, por haver uma grande repressão, por isso a queda do muro da discórdia e o anexo da Alemanha, ocorreu muito rápido.

A Alemanha Oriental em conjunto com a União Soviética, foi responsável por enviar o cosmonauta Sigmund Jähn ao espaço, na época da Guerra Fria (Socialismo X Capitalismo). Jähn é o herói de Alex, ele alimenta o sonho de Alex de se tornar um cosmonauta e o sonho uma vida melhor, a busca de algo inatingível em um país que pouco pode fazer por ele (Alex). Mas esse herói, que foi á inspiração de Alex na sua infância e talvez na sua vida, perde a sua função de herói quando Alex o vê ao lado de um taxi, como um simples motorista. Todo aquele mito criado em torno de Sigmund Jähn acabou naquele momento, e ele se tornou um falso herói, uma simples ficção, como um personagem que habitava a mente de Alex em seus sonhos e suas lembranças, que podem de certa forma ser falsas já que o herói não existe mais.Christine Kerner (Mãe) é uma falsária junto com Alex, talvez mais que ele, pois ela mente sobre o pai de Alex², fazendo com que ele pense de uma forma que nunca pensaria sobre seu pai, caso a verdade fosse dita. Alex perdeu o seu amor por seu pai, mesmo quando sabe a verdade continua com o mesmo sentimento, após vários anos acreditando em uma mentira. Mentira que fez parte de sua vida e se tornou uma verdade para ele e sua irmã Ariane, Alex perdoou sua mãe, sabe que ela mentiu pelo mesmo motivo que ele mente para ela, por amor. Alex vê sua mãe como uma pessoa boa, que fez tudo aquilo para protegê-los e pelo amor que sente por eles, é o mesmo motivo que faz ele, mentir para ela sobre a queda do socialismo em seu país. Alex parece mentir para sua Mãe para protegê-la, mas não só por isso, para criar uma nova realidade do mundo que ele vive, para poder sentir algo que foi perdido, parece muito uma nostalgia que Alex quer fazer através da mentira para poder vivenciá-la novamente, ou mesmo para poder vivenciar algo que ele queria viver mas que lhe foi tirado.

Alex tem uma visão de seu Pai (Robert Kerner), completamente influenciada por sua Mãe, quando Ariane diz a Alex que viu seu Pai no emprego, Burguer King, ele logo imagina um homem extremamente gordo sentado em uma piscina comendo hambúrguer como um porco. Ele tem uma visão ruim de seu pai, uma falsa visão construída pelo sentimento que sua Mãe o fez acreditar, caso ele soubesse a verdade seu sentimento e sua imaginação sobre esse pai que supostamente fugiu com outra mulher, seria completamente diferente. Uma inverdade pode mudar complemente a visão de uma pessoa sobre um assunto, como de Alex, essa inverdade é muito poderosa para que o use em outra pessoa, faz com que sua vida, sua opinião, seus valores mudem, mas essas mudanças dependerão da inverdade ou verdade contada àquela pessoa. Em uma cena Alex está com seus “irmãos” (filhos de seu Pai com outra mulher), assistindo João Pestana, onde ele é Astronauta, e seu Pai chega à sala e diz: Meus Ursinhos. Alex olha para seu Pai que senta no sofá, seu Pai descobre quem ele é, nesse momento ocorre o maior retorno ao passado do filme, ele vive algo que lhe foi tirado quando pequeno, a sua infância com seu Pai. É como se ele tivesse vivido aquilo com seu Pai, e estivesse relembrando, mas ele vive apenas naquele momento.

Quando a Mãe de Alex fica em coma por 8 meses, cai o muro da discórdia e a Alemanha Oriental (Socialista) país onde ela reside, é anexada a Alemanha Ocidental e tudo o que ela acreditava passa a não existir mais. Alex descobre que sua Mãe não pode sofrer uma emoção forte, pois ela poderia sofrer outro ataque e vir a falecer. Alex decide levá-la para casa onde ela estaria segura, e não ficaria sabendo sobre o muro. Ele arruma sua casa exatamente como era antes dela ter o ataque, na sua casa Alex cria um mundo á parte, como ele mesmo diz: “A Alemanha Oriental criada para a Minha Mãe era a que eu havia sonhado”, todos ao redor começam a contribuir para a mentira de Alex, ajudando ele no que fosse necessário. Ele estava recriando um mundo não mais existente, criando da sua forma, mesmo que seja um mundo falso para todos que vêm de fora, é um mundo verdadeiro para sua mãe, para ele, pois eles vivenciam e acreditavam naquele mundo, que acabou se tornando parte de suas vidas.

Criamos mundos onde vivemos, mundos que fazem parte da nossa “realidade”, Alex recriou um mundo para a sua Mãe, para o bem estar dela e até mesmo para ele. Em vários momentos do filme Alex se mostra um pouco nostálgico aquele mundo que agora não existe mais, ele quer viver junto com sua Mãe como na sua infância, onde eles sempre estavam juntos e um cuidava do outro, um tempo que se foi e que ele tenta recriar após ela sair do coma. Todos participam desse momento nostálgico de Alex, mesmo com algumas opiniões contra essa atitude de Alex, como de Ariane e Lara, Alex consegue criar e manter esse mundo novo em que sua Mãe está vivenciando. Alex acaba usando a mentira em vários momentos do filme, ele mente sobre o Pai de Lara, sobre o namorado de Ariane e em outros momentos, ele acaba criando um mundo “ideal” onde as pessoas são “melhores”, através da mentira e da inverdade. Esse mundo criado através de informações falsas prejudica a sua convivência em alguns momentos e também ajuda na convivência com sua mãe.

Essas mentiras são muito parecidas com o que vivemos cotidianamente, mentimos para conseguir algo, usamos informações falsas ou que não são 100% verdadeiras para o mesmo motivo, não podemos saber até que ponto a mentira faz parte de nossas vidas, todos mentimos, até mesmo “o homem verídico é um falsário, já que oculta os motivos pelos quais quer o verdadeiro”³. Mas de certa forma aquele mundo criado por Alex, era um “mundo real”, sua casa muda após sua Mãe entrar em coma, mas quando ela volta, Alex arruma deixando como era antes. Pensando dessa forma é um mundo que já existia, mas que a partir daquele momento passou a ser diferente, o mundo ao redor mudou, mas Alex queria que seu pequeno planeta fosse o mesmo que antes, por isso não podemos dizer que esse mundo é falso e nem que é verdadeiro, é um mundo que pertence a essa dualidade.

Denis é um falsário por natureza, ele sonha em ser diretor de cinema e ajuda Alex a criar essa nova Alemanha Oriental. Juntos eles criam vídeos que se confundem com a realidade, por usarem imagens reais e falsas, e informações reais e falsas para conseguirem manipular a imagem á seu favor. Eles recriam um jornal que passava na Alemanha oriental, no começo eles apenas passam reprises, mas depois aprendem a linguagem do jornal e passam a criar os seus próprios vídeos. Esses vídeos são uma metáfora com tudo o que se passa no filme e com o próprio cinema, são mentiras contadas de uma forma, que passamos a acreditar que aquele mundo possa existir. A manipulação de imagens que recebemos todos os dias na televisão são como essas imagens feitas por eles para dar mais realidade a esse falso mundo. A mentira deles é uma mentira impossível de ser contestada, pois o jornal tem a função de mostrar a “verdade”, é o que dizem, mas sua Mãe nunca imaginaria que Alex seria capaz de criar um jornal somente para ela, para omitir a informação de que o muro caiu. A manipulação de imagens através da mídia é algo que tem um poder muito grande sobre as pessoas, essas imagens podem mudar a opinião, mudar valores e ter vários efeitos sobre as pessoas que as vêem. O próprio filme Adeus Lênin! É feito de uma forma quase documental, com cenas reais e ficcionais juntas, que podem fazer um expectador pensar que aquilo foi real, não é, mas enquanto assistimos acreditamos fazer parte daquele mundo, que pode se tornar real a partir do momento em que acreditamos nele, as imagens não são a representação do REAL, me refiro a realidade pura, mas representam uma versão do REAL, um recorte de algo real.As mentiras no filme Adeus Lenin!, começam a ser reveladas no momento em que Alex encontra o picles Spreewald, que sua Mãe queria tanto. Alex passa o filme todo tentando achar um vidro vazio ou cheio desse picles, quando ele acha o vidro vazio na casa de Lara e dele, as verdades são reveladas. Sua Mãe revela a verdade sobre seu Pai, sua Mãe sai do quarto e vai até a rua e vê a nova Alemanha, mas ele consegue mentir de novo para ela.

O picles Spreewald é o objeto das verdades e mentiras, tudo é revelado para todos, até mesmo sua Mãe descobre que não existe mais a Alemanha Oriental, pois Lara conta tudo a ela no hospital. Esse picles é como se fosse um ponto entre o real e o falso, enquanto Alex procura esse picles as mentiras de Alex dão certo, eles vivem nesse mundo falso onde tudo é possível. Mas quando Alex encontra esse picles as coisas começam a fugir de seu controle, as verdades são reveladas, tudo é revelado, e o mundo de possibilidades acaba. Alex revê seu pai, conhece o cosmonauta Sigmund Jähn e vê que ele não é aquele herói do passado, e por fim sua Mãe acaba falecendo e levando com ela esse mundo que ele havia sonhado. É como se fosse uma estrela que acabasse de morrer e levasse com ela os planetas, pequenos mundos que o rodeavam e que dependiam dela para poder sonhar e viver. O filme é uma aula sobre a vida, podemos aprender muito assistindo ele. Podemos perceber em até que ponto a verdade é falsa e o falso real, o filme é uma representação do “real”, apesar de ser uma ficção. Vivemos em um mundo criado por nós, um mundo que é diferente para todos, apesar de vivermos no mesmo mundo. Esse mundo falso ou real que criamos para nós, que pode parecer falso para outros, é o mundo que acreditamos fazer parte da nossa existência. As imagens mostradas no filme são imagens reais montadas com imagens fictícias, produzidas. Não sabemos até que ponto essas imagens fictícias, chamadas falsas, são realmente falsas. O mesmo podemos dizer sobre as imagens reais, que parecem tão falsas quanto ás fictícias, falsas pelo que elas representam, pelo que elas nos mostram e nos fazem refletir. O filme é feito de uma forma quase documental em alguns momentos, passando uma idéia falsa de realidade. Christine Kerner diz a Alex e Ariane que seu pai fugiu com uma mulher Ocidental, algo que não é verdade, ele foi para o lado ocidental e esperou Christine ir com as crianças, o que não aconteceu. Christine não foi por medo de perder a guarda das crianças e mentiu para elas que seu pai tinha fugido, ela guardou essa mentira durante anos até que revelou a elas a verdade.


Escrito por Osvaldo Reis

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica; tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.

DELEUZE, Gilles. In: Imagem-Tempo: Cinema 2. Cap. 6: As Potências do Falso. p. 155-188. São Paulo: Brasiliense, 1990;COSTA DA SILVA, Josimey. In: Sobre o imaginário;TAVARES COSTA, Maria Teresa. In: A Potência do Simulacro;DELEUZE, Gilles. In: Crítica e Clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.