JAVÉ E OS NARRADORES, NÃO ERA OS CONTADORES DE JAVÉ, ACHO QUE ERA OS JEVELIANOS NARRADORES, A TALVEZ SEJA NARRADORES DE JAVÉLICOS OU TESTEMUNHAS DE JAVÉ

Direção Eliane Caffé

Meu nome é Antônio Biá. E tenho uma história para contar a vocês, a história de um povo valente, um povo sofrido, que tem grandes histórias pra contar. A história se chama A Odisséia de Javé. Esta história se baseia em histórias contadas passadas para á historia escrita científica. Pois é na verdade que se baseia essa história, F for Fake, tudo que é contado é a partir de fatos reais, visto de maneiras diferentes. Chega de conversa e vamos começar.

Antônio Biá, eu, sou chamado para contar a grande história de Javé, história essa que o povo conta tornar essas histórias contadas, para história escrita, científica. A minha missão não é fácil, pois toda a história de Javé é de lembranças, invenções, mentiras, verdades. A invenção desse passado pode influenciar no futuro de Javé, uma “falsa” história, algo “não real”, que se torna “real”, para os personagens que a contam e também para as personagens que ouvem.

Esse tema de Narradores de Javé, é uma metáfora com toda a nossa história ocidental e oriental, não sabemos ao certo até que ponto, o que aprendemos na sala de aula é “real”. Os personagens das histórias se tornam mitos, cada vez que o mencionamos, a verdade é modificada, mesmo que na verdade, os fatos reais sejam diferentes, esses fatos que escutamos, se tornam reais, pois acreditamos neles, a partir desse momento é que uma mentira se torna real. Temos que saber até que ponto uma mentira é real? E até que ponto uma verdade é mentira? Isso ninguém pode responder é claro.

Na grande história de Javé, conhecemos os mitos, como Idalécio ou Idalício ou Idaléo e Maria Dina ou Oxum. Esses mitos foram criados a partir das histórias é claro, toda vez que alguém conta uma história em Javé ela é diferente, mas não é mentira, o povo sabe várias histórias do mesmo personagem, a partir desse momento é que nascem os mitos.

Toda vez que uma história cita um personagem, mesmo em histórias diferentes ou parecidas, o mito diante deste personagem se fortifica, se torna algo que não podemos explicar, algo que permanece na mente do povo e que mantém uma “vida” através de histórias, se torna um mito.

As histórias de Javé se tornam verdades a partir do momento em que são contadas e não questionadas. Como assim? Essas histórias são contadas de várias formas diferentes, mas que se parecem um pouco entre si. Se as histórias são falsas não sabemos, e não importa saber, o que importa é que a partir do momento em que alguém acredita nelas e as conta para outra pessoa elas passam a ser reais, passa a fazer parte da vida de uma pessoa, vida essa que carregará e irá garantir a vida dessas histórias. A própria história contada por Zaqueu pode ser falso, ele começa narrando a grande história de Javé, onde Antônio Biá, irá escrever de forma científica, as narrações, histórias contadas pelo povo, essa história que vimos no filme pode ser uma história “falsa” sobre a história de Javé, mas ela se torna “verdade”, pois acreditamos nela.

A mentira e a verdade são fontes de salvação, pois todas as histórias têm um pouco de cada uma delas. Não existe uma história verdadeira, uma história real, e sim fatos que a tornam reais. As mentiras se tornam reais e pode sim ser usado como fonte de salvação, para o bem e para o mal, no filme o povo de Javé quer usar a “mentira” ou a “verdade”, para salvar a sua “cidade”. Algo não alcançado, pois as histórias se confundem, cada um tem uma versão sobre as histórias da fundação da cidade, ficando difícil para Antônio Biá “escrever de forma científica”, alguma história sem favorecer nenhuma das histórias contadas. São tantas histórias que elas foram feitas mesmo para ficarem na boca do povo, e para serem contadas através das gerações e não para ficar em um livro, como se fosse á única fonte da verdade sobre a grande história de Javé.

O grau de intensidade das várias “verdades” contadas sobre a mesma história, é impossível saber ou definir. Pois essas histórias não foram contadas para serem grandes verdades, e sim para serem contadas. Cada um da sua forma, do seu conhecimento sobre essa história, que unidas não formam uma só história, mas que separadas alcançam uma intensidade que formam diversas histórias “verdadeiras”, interessantes sobre o mesmo assunto.

Concluindo, o filme Narradores de Javé, conta a história de um povo que gosta de contar histórias, verdadeiras ou falsas, histórias essas que mantêm uma tradição, que faz com que o povo as viva em suas mentes criativas. Mentes que são capazes de guardar por gerações uma tradição, uma história de sua origem, que mantêm esse povo unido por contarem a mesma história, cada um da sua forma e sua versão.

FIM DA ODISSÉIA DE JAVÉ – PRIMEIRA PARTE. HAVERÁ CONTINUAÇÃO?


Escrito por Osvaldo Reis

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

DELEUZE, Gilles. In: Imagem-Tempo: Cinema 2. Cap. 6: As Potências do Falso. p. 155-188. São Paulo: Brasiliense, 1990;COSTA DA SILVA, Josimey. In: Sobre o imaginário;TAVARES COSTA, Maria Teresa. In: A Potência do Simulacro;DELEUZE, Gilles. In: Crítica e Clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.