O Messianismo em Alice

Direção Tim Burton

Esses são os doze passos do herói mítico, de acordo com Jaseph Campell:

1) Mundo Comum; 2) Chamado a aventura; 3) Recusa ao chamado; 4) Encontro com o mentor; 5) Travessia Umbral; 6) Testes, aliados e inimigos; 7) Aproximação do objetivo; 8) Provação máxima; 9) Conquista da recompensa; 10) Caminho de volta; 11) Depuração; 12) O retorno transformado.

Sou um admirador passivo da obra de Lewis Caroll, principalmente sua obra mais conhecida “Alice no País das Maravilhas”. Não me pareceu uma novidade quando o cineasta Tim Burton, conhecido por criar e recriar fabulas, se incumbiu da tarefa de readaptar o romance.

Ao assistir o filme não pude deixar de ficar assombrado. Não pela a fidelidade, (pois esta me parece uma constante nos filmes adaptados), mas exatamente pelo antagonismo do filme para com o livro.

Alice, o original de Caroll, é considerada uma celebre obra do gênero surrealista. Alice, uma garotinha, senta-se em uma arvore, quando percebe um coelho branco que a leva a sua toca, e ao cair é transportada ao tal país das maravilhas do titulo. A Alice da obra se encontra no meio de personagens dos mais pitorescos, como rosas cantoras, uma lagarta com vícios, um chapeleiro louco com sua lebre amiga (que por ter seus relógios quebrados na hora do chá não podem fazer nada além de beber chá), e a rainha incapaz de dizer algo alem de “cortem as cabeças”.

O livro é um manifesto sobre a necessidade, mesmo que na forma de sonho, do ser humano ter seu lado ilógico e inconsciente. Lewis usa os elementos e personagens para criar uma critica mordaz a sociedade. Claros exemplos são o chapeleiro e a lebre, incapazes de desobedecer a eterna hora do chá e comemorando o nada absoluto, ou mesmo a Rainha de Copas, numa alusão a rainha Maria Antonieta.

Os personagens de Caroll simplesmente são. Antigos Pré Socráticos diziam que a verdade de algo era esse algo em si. A verdade dos personagens do livro simplesmente é aquilo que eles são, e não precisam de vida pregressa ou explicações.

Ao assistir ao filme de Tim me deparei não só com um roteiro hollywoodiano clássico, como com um filme judaico-cristão messiânico. Calma, explico. O filme se passa anos depois da ida de Alice ao país das maravilhas, agora Alice é uma pós-adolescente que, por conta do pai, vê a “hipocrisia” do mundo (na minha opinião, nada mais adolescente). Enquanto a pequena Alice conversa com seu pai sobre a “loucura do mundo” o primeiro elemento do que será o roteiro clássico se anuncia: O mundo ideal para Alice, e para aonde ela vai querer e tentar retornar por todo o filme.

Em uma festa ela novamente encontra o coelho, e novamente encarna o país das maravilhas. Mas, algo é diferente nesse País das maravilhas, agora os personagens discutem a possibilidade de aquela ser a “verdadeira” Alice. Agora os personagens são lineares.

Eles, depois de várias discussões decidem levar Alice a um oráculo. Ai eu percebi que o que viria nada tinha haver com a obra que eu conheço. O oráculo/lagarta (o encontro do mestre) avisa que a “verdadeira” Alice deveria salvar o mundo do malvado dragão e da rainha vermelha. Vejo-me na necessidade do paralelo, Alice, como o próprio Jesus, foram anunciados como “escolhidos”. Jesus sabia desde pequeno a sua missão, e Alice sabia que ela teria que empunhar a espada contra o dragão malvado. Ai há a recusa, Alice diz que não mataria. Ela se recusa. Ai percebi, como os doze passos de Campell funcionam para o filme, de forma não inovadora. Eu já sabia o que esperar, no mal sentido da expressão. Sabia que Alice tentaria fazer algo que desafiaria o “destino”, mas o expectador nunca duvida de que ela é a escolhida. Ao ver o cachorro, a rainha Branca diz: “A espada está lá”. Juro ter tido um lapso de que tudo mudaria, mas não.

Assim os personagens se tornam, um há um, ajudantes da cruzada de Alice, o chapeleiro maluco vira um soldado ressentido, o coelho se torna um ressentido…. na verdade quase todos o fazem, até mesmo a rainha vermelha se torna uma invejosa da bela irmã. Na verdade, nesse sentido todos eles são reativos, no sentido dado por Nietzsche. Todos eles esperam a Alice prometida, sem nunca duvidar daquele pergaminho, sem jamais lutar. Todos são incapazes diante da vinda do messias, nesse caso Alice, todos sentam, esperam, e dizem: “Sem ela aqui, não podemos vencer… então pra que tentar?”. O que me é estranho, levando-se em conta Tim Burton é especialista em criar mundos contraditórios como, por exemplo, em “Peixe grande”, “Fantástica Fabrica de Chocolates” ou “Noiva Cadáver”. Nesse Alice, seus dois mundos agem da mesma forma, com a diferença de um ser mais colorido que outro.

Quando dentro da casinha do monstrinho, ao invés de lutar, Alice devolve o olho, com quem “da a outra face”. Alice reluta, e reluta, mas no fim acaba vestindo a armadura dourada e lutando contra o dragão-cobra (Cobra? Seria esse mais um paralelo?). Mesmo tendo dito o filme inteiro que não lutaria, Alice aprende a manejar a espada e parte pra cima dos malvados.

A linearidade do filme Alice é impactante. Só ela é capaz de qualquer ação no filme, e quando por fim ela escolhe o mundo “real”, ela acusa a “hipocrisia do mundo”, em uma clássica cena de superação. Por fim, o ultimo clichê, depois de escolher o seu “caminho” Alice vai rumo à liberdade, mas ao invés da salvação final vir do mar, ela surge do céu, na imagem da borboleta. Nada mais redentor do que isso.

O filme lida muito mais com a incapacidade de fugir do próprio destino do que de superá-lo, Alice aceita seu roteiro com todas as letras, de boa moça até a assassina de dragões. O filme prega isso tão claramente que escolhe o pergaminho como o oráculo da profecia, um algo que começa e termina na horizontal, algo que tem começo meio e fim. A metáfora perfeita para o próprio filme.

Alice de Tim Burton não é uma critica social, ou um filme sobre a nossa necessidade da incoerência. É um filme sobre um país, que apesar de belo, é habitado por criaturas reativas incapazes, sobre o destino maior que os personagens.

Mas… eu sei que será aclamado, pois é fácil se identificar com alguém que se prega sonhador, lúcido e bom no meio de um exercito de pessoas malvadas desde o primeiro frame.


Escrito por Murillo B. Martins

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

CAMPELL, Joseph. Herói de mil faces. Trad. Adail Umbirajara Sobral. São Paulo: Cutrix/pensamento.

NIETZSCHE, W. F. Genealogia da moral: uma Polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.